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Soñadora, guerrera y extranjera de corazón. Busco sempre além da minha realidade, voo nas asas da imaginação. Há tanto o que descobrir, viver, sentir. O mundo é tão grande, maior ainda é o poder da mente. Tenho uma alma de lembrança, do querer, das possibilidades, do inimaginável da ânsia por um futuro melhor. Uma angústia constante que busca no improvável a compreensão do ser.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Crítica ao Utilitarismo

O utilitarismo é uma teoria teleológica e consequencialista. Defende que o fim de nossas ações é a felicidade e que o correto é definido em função das melhores consequências, que são definidas em função da maximização imparcial da felicidade dos afetados por nossas ações. Maximizar imparcialmente a felicidade significa promover a maior soma de felicidade possível para todos aqueles que sofrem de alguma maneira as consequências do que fazemos, independente de serem pessoas por quem temos afetos ou laços consanguíneos. 

Entre salvar um parente próximo de um incêndio e salvar quatro estranhos, dado que salvar quatro estranhos maximiza a felicidade, o padrão moral utilitarista defende que o certo é salvar os quatro estranhos ao invés de um parente próximo. Dado que, num acidente inevitável, a única forma de salvar a vida de todos os passageiros de um ônibus e assim maximizar a felicidade é o auto-sacrifício do motorista, o utilitarismo defende que o correto é o auto-sacrifício do motorista.

Por exigir decisões desse tipo, a teoria utilitarista foi e ainda é mal compreendida e muito criticada. Para desfazer os equívocos em torno do utilitarismo e contribuir para que fosse adequadamente compreendido e avaliado, John Stuart Mill (1806-1873) publicou Utilitarismo (1861), que se tornou um clássico da ética e influenciou decisivamente os utilitaristas posteriores.

A edição da Porto Editora traz uma breve nota de apresentação; uma boa introdução que serve não só como introdução ao Utilitarismo de Mill, mas como bom texto introdutório à teoria utilitarista como um todo; um anexo útil, no fim da edição, com notas explicativas, bibliografia e um índice analítico.
A tradução da Gradiva foi realizada a partir da edição de 1871 (a última a ser revisada pelo autor) e traz um breve prefácio; uma boa introdução que engloba aspectos da vida, obra e filosofia de Mill e do utilitarismo em geral; uma breve cronologia da vida de Mill; e, no final, notas e bibliografia.

A teoria utilitarista foi defendida pela primeira vez por Jeremy Bentham (1748-1832) em Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação (1789). Até o Utilitarismo de Mill a teoria era baseada no hedonismo quantitativo: defendia-se que quanto maior a duração e intensidade dos prazeres gerados por uma ação, mais felicidade tendia a ser gerada por essa ação. 

Mill defende em cinco capítulos uma versão mais sofisticada de utilitarismo, que se baseia no hedonismo qualitativo: durante a avaliação de uma ação, além da intensidade e duração dos prazeres, devemos levar em conta a qualidade dos prazeres gerados por ela. Mill os distingue como superiores ou inferiores, de acordo com a sua natureza intrínseca. São superiores os prazeres do intelecto, das emoções, da imaginação e dos sentimentos morais e são inferiores os prazeres corporais. Confrontados por indivíduos que tenham experiência de ambos, os do tipo superior sobressaem-se como preferíveis, sendo então considerados melhores (superiores) do que os outros.

Uma das várias objeções contra o utilitarismo que são discutidas no livro é a acusação de que o utilitarismo é muito exigente. Mill responde a essa objeção sustentando dois argumentos. Um é que a não ser que alguém seja um benfeitor público, não é necessário considerar a felicidade de todas as pessoas ou de todos os seres sencientes, mas apenas dos envolvidos na ação. Outro argumento é que abster-se de praticar ações que sejam prejudiciais à sociedade é o que, de alguma maneira, todo sistema moral exige. Antes desses, Mill parece defender ainda um terceiro argumento, que não é tão claramente desenvolvido quantos os dois anteriores. Este argumento sustenta que não é preciso agir de acordo com um senso cego de dever, o que consequentemente nos desobrigaria de promover sempre — rígida e inquestionavelmente — a felicidade geral. 

A primeira resposta de Mill talvez seja a mais problemática. Primeiro, porque se aceitarmos que os envolvidos nas nossas ações pertencem a um círculo pequeno, que provavelmente envolverá aqueles com quem nos relacionamos cotidianamente, ainda sim não escapamos da obrigação do auto-sacrifício. Provavelmente serão muitas as situações em que será necessário abdicar de nossa felicidade individual em função da felicidade geral do grupo restrito que sofre as consequências de nossos atos. Segundo, porque na medida em que muitas de nossas ações têm alcance global, como as que se referem à preservação ambiental, o universo de indivíduos a serem considerados por nossos atos cresce consideravelmente e, de fato, é muito difícil levar sempre em consideração a felicidade geral numa proporção tão alargada.

Mill trata também do problema da sanção moral. Uma sanção moral é aquilo que motiva ou obriga as pessoas a agirem moralmente; no caso de Mill, uma fonte de prazer e dor que as leva a agir de determinado modo. Mill defende que a sanção última do princípio de utilidade ou da maior felicidade é o sentimento de empatia do homem para com seus pares ou sentimento social que o leva a unir-se a eles e a ajustar os seus interesses com os interesses deles. Esse sentimento é um tipo de sanção interna, isto é, um sentimento em nossa mente de desaprovação perante a violação dos deveres e que nos impede de violá-los. Por ser um sentimento, assim como outras sanções internas, poderia ser negado. No entanto, Mill argumenta que, pelo fato de esse sentimento de empatia possuir uma base natural, não pode ser negado. O homem possui uma natureza social. Naturalmente, deseja unir-se aos seus semelhantes; e para que essa união seja possível é preciso que exista igual consideração de interesses. Assim, quanto mais imparcial for o homem e ajustar seus interesses individuais aos interesses coletivos, melhor será para ele mesmo.

Mill tenta também apresentar uma prova a favor do utilitarismo em três etapas: demonstrar que a felicidade é desejável; demonstrar que a felicidade geral é desejável, demonstrar que a felicidade é a única coisa desejável como fim, sendo tudo o resto desejável apenas como meio ou parte desse fim. Este capítulo é alvo de muita discussão, pois a prova que Mill apresenta parece falaciosa.
Na primeira etapa da prova, Mill usa as seguintes analogias para demonstrar que a felicidade é desejável: assim como provamos que um objeto é visível demonstrando que as pessoas o vêem e provamos que um som é audível demonstrando que as pessoas o ouvem, também provamos que a felicidade é desejável demonstrando que as pessoas a desejam. As expressões “é visível” e “é audível” significam o mesmo que “pode ser visto” e “pode ser ouvido”. Assim, considerando a analogia de Mill, “é desejável” deveria significar “pode ser desejado”. De fato, a felicidade pode ser desejada e podemos prová-lo verificando que as pessoas a desejam.

No entanto, o que Mill pretende defender é que “é desejável” significa “é digno de ser desejado”. O que enfrenta a objeção óbvia de que o fato de as pessoas desejarem uma coisa, neste caso, a felicidade, prova que as pessoas a desejam, mas não prova que seja digna de ser desejada.

Uma resposta possível a essa objeção é defender que o que Mill pretende demonstrar com a analogia dos sentidos é que recorremos à visão e à audição para estabelecer o que é visível e o que é audível; da mesma forma, recorremos à nossa capacidade de desejar para estabelecer o que é desejável (ou seja, digno de ser desejado). Ao fazê-lo, descobrimos que a felicidade é desejada e que nada há de errado nisso porque é uma coisa boa, sendo então digna de ser desejada.

Essa resposta é problemática porque as pessoas desejam muitas coisas prejudiciais para elas. Se o que desejamos determinar é o que é digno de ser desejado, teremos que admitir que viver num mundo de mentiras é digno de ser desejado porque muitas pessoas desejam viver num mundo de mentiras.

A segunda etapa da prova é demonstrar que a felicidade geral é desejável: Mill argumenta que se cada pessoa deseja a sua própria felicidade, consequentemente todas as pessoas desejam a felicidade de todas as pessoas. Nesse ponto, Mill é acusado de cometer a falácia da composição, na qual se afirma que porque as partes possuem certas propriedades, o todo também terá tais propriedades. Mill parece estar errado porque nada garante que quem deseja a sua própria felicidade venha a desejar a felicidade de todas as pessoas.

Outra interpretação possível do argumento de Mill é que na medida em que as pessoas promoverem a sua própria felicidade, a felicidade geral será promovida. Esse argumento enfrenta o problema de ser incoerente com o utilitarismo. O utilitarismo defende a promoção imparcial da felicidade, o que em alguns momentos implica na renúncia da felicidade individual para a promoção da felicidade geral.
A terceira etapa da prova é demonstrar que a felicidade é a única coisa desejável como fim e que o resto é desejável apenas como meio ou parte para a felicidade. Mill argumenta da seguinte forma: admite o fato de as pessoas desejarem outras coisas diferentes da felicidade, como a virtude, por exemplo. Admite que a virtude é digna de ser desejada e que deve ser desejada por si mesma e acrescenta que tanto a virtude quanto outros ingredientes da felicidade (a música, a saúde, etc.) não são radicalmente distintos ou separados da felicidade. São inegavelmente meios para ela e quanto mais estiverem associados à felicidade, mais se tornam, além de meios, parte da felicidade, sendo então desejados por si mesmos. Esta resposta de Mill também não é muito convincente, pois se há coisas que são desejadas por si mesmas, mesmo por serem associadas com a felicidade, a felicidade não pode ser considerada a única coisa desejável. Assim, temos muitas indicações de que a prova de Mill seja falaciosa, embora seja preciso um exame mais atento para demonstrá-lo com maior precisão.

Mill termina o livro tentando demonstrar que o utilitarismo não é incompatível com a justiça. Defende que a justiça não está dissociada da felicidade e que a promoção da felicidade passa pela justiça. A relação da justiça com o utilitarismo consiste no fato de as regras morais da justiça estarem diretamente relacionadas ao que há de essencial na promoção da felicidade humana. São elas que proíbem os homens de se prejudicarem, preservam a paz entre eles e os pune quando as desrespeitam. A imparcialidade e a igualdade, virtudes ou obrigações da justiça, são partes essenciais da utilidade. Por tudo isso, as regras morais da justiça são mais imperativas do que as outras, embora a sua observação admita exceções.

Pelo fato de admitir certos tipos de exceções o utilitarismo é frequentemente acusado de ser uma teoria incompatível com a justiça. No entanto, podemos acrescentar à argumentação de Mill que a flexibilidade do utilitarismo pode ajudar-nos a ter uma noção mais adequada de justiça. Basear a justiça em regras engessadas pode ser uma ponte para a injustiça. A princípio, matar, roubar, mentir ou forçar alguém a fazer o que não quer seria errado e injusto. No entanto, em circunstâncias especiais pode ser mais justo revogar as regras morais da justiça que condenam essas atitudes para evitar que uma injustiça maior seja cometida. Há casos particulares em que pode ser necessário revogar os princípios gerais da justiça em função da maior felicidade geral: utilizando exemplos do próprio Mill, para salvar uma vida pode ser necessário roubar ou tomar pela força comida, remédios ou um médico.

Muitas são as críticas levantadas contra a teoria utilitarista de Mill. Mas ao contrário do que acontece a outras teorias que se enfraquecem mediante as objeções que lhe são levantadas, o utilitarismo tem demonstrado cada vez mais a sua força. A discussão em torno de seus princípios tem erguido um debate vivo e tem impulsionado seu aperfeiçoamento e gerado versões mais refinadas da teoria. Para compreender os fundamentos desse debate, leia-se atentamente o Utilitarismo de Mill, clássico obrigatório para estudiosos de ética, mas não só. Com escrita clara e fluente, Mill discute questões importantes relacionadas com o bem-estar individual e coletivo, que são também relevantes para a filosofia política e para outras áreas das ciências humanas.

Fernanda Belo Gontijo
Universidade Federal de Ouro Preto

KANT: FILOSOFIA COMO SISTEMA E O A PRIORI – PROBLEMA TEÒRICO E PRÁTICO

1. Introdução

Tal artigo, em linhas gerais, tem como preocupação proporcionar e ampliar o estudo sobre o que é definido por Ciência Jurídica. Em se tratando de uma análise pormenorizada do que se chama de Ciência Jurídica, nada mais plausível do que se estudar algo que a fundamenta. Embora Hans Kelsen, em sua obra Teoria Pura do Direito (Reine Rechtslehre), considere a ciência jurídica como algo distinto e autônomo em se tratando de outras áreas do conhecimento humano, acreditamos que ela, assim como todo saber existente, não poderá se constituir como uma teoria pura cujo seu único objeto seja a norma jurídica. Nessa perspectiva, observamos na filosofia prática de Kant, mais precisamente na noção do dever ser, algo como uma estrutura fundante para toda a Ciência Jurídica como, também, para tudo o que se refere ao Direito pós-kantiano. É por tal motivo que acreditamos que o estudo da filosofia sistêmica kantiana é um dado importante para todo e qualquer vertente relacionada às normas ou às leis. Após o transcendentalismo de Kant torna-se infrutífero uma não recorrência à tal concepção. Mas por que isso? É necessário que se contextualize a filosofia kantiana para que se possa dimensionar a sua importância.
Em ampla medida pode-se afirmar que o problema geral kantiano é aquele que pergunta sobre a possibilidade do a priori. Portanto, a grande preocupação de Kant sempre foi com a razão. Nos textos pré-críticos esta preocupação já era vista. Por exemplo, nos Sonhos de um visionário explicados pela metafísica, datado de 1766, Kant já parece ter uma diretriz para alcançar a solução da possibilidade da razão. Isto é constatado quando é assinalada na conclusão dos Träume a impossibilidade para se explicar a relação entre alma e corpo.
Nessa perspectiva, vê-se que nos Träume, Kant compara o sistema leibniz-wolffiano com os resultados alcançados por Swedenborg. Este acreditava que via e falava com espírito. Ele afirmava que os espíritos moviam objetos e que lhes transmitiam mensagens sobre catástrofes e pessoas. No entanto, apesar de Swedenborg ser um acadêmico respeitado tanto por ser um catedrático de Matemática na Universidade de Uppsala quanto por seu reconhecimento enquanto cientista, como, também, pela vastidão e profundidade dos seus escritos sobre ciência, mesmo assim, Kant acreditava que Swenderborg padecia de alucinações.
Nos Sonhos, Kant qualifica as conclusões swedenborguianas de “loucuras dos sentidos” e relaciona com as conclusões de Leibniz e Wolff, chamando-as de “loucuras da razão”. Nestes termos, Kant critica todos os neo-cartesianos e afirma, veementemente, que nunca vamos poder solucionar os problemas da relação entre alma e corpo.
Sob essa ótica, quanto à alma, Kant acredita que ela é uma substância imaterial, tal qual foi provada por Descartes, que tem características próprias as quais são diferentes daquelas presentes no corpo, que é substância material. Com isto, então, em seu escrito de 1766, Kant já começava a fazer uma distinção entre mundo inteligível e mundo sensível.
Posteriormente, na dissertação de 1770, Kant faz a diferença entre mundo fenomênico e mundo noumênico, com uma concepção propriamente sua de espaço e tempo.
Logo, o problema kantiano, desde 1766 até as suas últimas obras, foi sempre com a razão. Neste sentido, no problema kantiano, há uma unidade interna (a possibilidade do a priori). Esta origina vários outros problemas articulados entre si, dentre eles o problema teórico e o prático. Concernente ao problema prático tem-se a relação entre o direito e a ética, onde, na filosofia kantiana, tanto um quanto o outro são deduzidos a partir da liberdade. Neste sentido, para Kant:
A dedução não é definida como cadeia de silogismos, mas, tal como uma peça jurídica, sua "prova" consiste na referência a um fato legitimador. Com efeito, elucida Henrich, se hoje chamamos de "dedução" apenas uma cadeia de silogismos (nesse sentido tendemos a interpretar a dedução de Kant), no século XVIII "dedução" era o nome de um instrumento jurídico, no qual a "prova" partia de um "fato". É de acordo com este modelo jurídico que Kant elaborou as deduções transcendentais tanto na Crítica da Razão Pura como na Crítica da Razão Prática.
No entanto, embora o direito e a ética sejam deduzidos da liberdade, a diferença entre um e outro reside no fato de que na ética a coerção é interna e enquanto que no direito é externa. Assim, o presente artigo terá como objetivo apontar a articulação (identidades e diferenças) entre esses dois aspectos como frutos de uma mesma raiz: a razão prática, onde, essa, tem uma intrínseca relação com a razão teórica
.
2. Problema teórico

Acredita-se que o problema teórico kantiano foi um instrumento eficaz para Kant tentar solucionar uma questão que há muito lhe gerava incômodos: a razão prática. Portanto, não se pode argumentar em torno do problema prático kantiano sem fazer menção sobre o seu problema teórico. Este, por sua vez, pode ser dividido em duas questões:
1ª. A metafísica é possível como ciência?
2ª. Como são possíveis a física e a matemática como ciência?
Em outras palavras, Kant objetivava perguntar como o conhecimento a priori é possível na matemática e na física e não na metafísica. A preocupação kantiana com a possibilidade do a priori é indicada até mesmo pela forma como Kant elabora as perguntas: para a matemática e a física, Kant fornece um tratamento diferente daquele da metafísica; para esta é perguntado sobre a sua possibilidade e para àquelas é afirmado serem elas conhecimento científico, portanto o que ele indaga é sobre o modo de efetuar tal conhecimento.
É conveniente lembrar que, para a filosofia kantiana, ciência é conhecimento universal e verdadeiro. Logo, ele não poderia ser a posteriori, pois este é baseado, unicamente, na experiência e esta não garante a universalidade nem a necessidade de nenhum conhecimento. Então, o conhecimento científico só pode ser a priori.
Por que o conhecimento a priori é possível na matemática e na física e não na metafísica? Saber a resposta sobre a questão é se fazer a pergunta sobre a possibilidade de juízos sintéticos a priori, ou seja, juízos que têm uma necessidade diferente daquela da lógica formal e, por conseguinte, não se baseiam no princípio de não-contradição. Nisto ocorre a constatação de Kant que há juízos universais e necessários, mas que também são juízos de ampliação. E Kant afirma: “... a experiência nos ensina que uma coisa é isto ou aquilo, mas não que tal coisa pode ser de outro modo...”
E ainda acrescenta: “... não conhecemos a priori nas coisas senão aquilo que nós mesmos nelas colocamos...”
Com isto, nós vimos que o sujeito só pode conhecer a priori algo que ele representa. O que ele conhece da natureza é o modo como a realidade lhe aparece, isto é, ele só pode conhecer os fenômenos e não os noumenos. Neste sentido, a física e a matemática vão se ater a fenômenos. A metafísica, pelo contrário, objetiva conhecer as coisas através da razão pura e, por este motivo, na sua busca incessante por razões, ela produz antinomias.
Desta forma, na parte da Crítica da Razão Pura intitulada Dialética Transcendental, Kant nos fornece o resultado da busca incessante da razão e uma destas respostas torna-se um problema importante para que Kant funde a sua ética. Aqui ocorre a ligação que há entre a Crítica da Razão Pura e a Crítica da Razão Prática.
É na parte da Dialética Transcendental que trata sobre o mundo , Kant vai abordar a questão da liberdade, mostrando as antinomias cosmológicas, ou seja, aquelas que sustentam que o problema cosmológico é o da causalidade, e afirma: “A causalidade, segundo, as leis da natureza, não é a única donde possam derivar-se todos os fenômenos do mundo. Para explicá-los, é necessário admitir-se, ainda, uma causa livre”.
Como, também: “Não há liberdade, mas tudo se dá, no mundo, exclusivamente segundo as leis da natureza.”
Logo, com o acima exposto, o que Kant detecta é que a metafísica consegue demonstrar, para um só tema, respostas contraditórias. A contradição sobre o determinismo e a liberdade põe Kant em dificuldades, pois se ele recusa a causalidade, não há lei para a natureza e nem a ciência. Se Kant refuta a liberdade, não há ética. Caso ele não dissolvesse tal questão, nós teríamos que abrir mão do pensamento racional incluindo o ético.
A solução de Kant para o impasse acima mencionado tem como fundamento aquilo que ele denominou de inversão copernicana, isto é, o conhecimento fundado na análise do sujeito cognoscente, onde este é parte ativa no processo, impondo as suas intuições puras de espaço e tempo e os seus conceitos.

3. O problema prático

Loparic afirma que, “deve ser possível à razão humana decidir, com toda segurança, se um problema teórico é solúvel ou não, podendo chegar, caso o problema seja solúvel, ao conhecimento do que é procurado”. Nessa perspectiva, tal como foi acima exposto, o problema teórico kantiano, mesmo resolvido, ou seja, mediante a junção de intuições e conceitos, da liberdade restrita pelo fato do homem conhecer, somente, fenômenos – aquilo que ele representa, alguma coisa, para a filosofia kantiana, ainda faltava. O problema teórico kantiano parece ter sido um instrumento de ajuda para a solução do problema prático. Em outras palavras, a grande preocupação de Kant continuava sendo a ética.
No Prefácio da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, publicado em 1785, já se percebe qual seria a grande preocupação de Kant. Nesse livro ele indaga sobre a suma necessidade de se elaborar, de vez, uma filosofia moral. pura completamente expurgada de tudo quanto é empírico. Assim, a constatação que Kant chegou para responder a tal questionamento foi a seguinte:
As leis morais, com seus princípios, em todo o conhecimento prático diferenciam-se de tudo o que contenha algo de empírico; e (...) toda a filosofia moral (...) quando aplicada ao homem (...) fornece-lhe leis a priori.
Sob essa ótica, para diferenciar e explicitar a origem das leis morais de tudo o que é empírico, Kant utiliza, inicialmente, na Fundamentação, o método do tipo analítico, porquanto a primeira seção da Fundamentação trata da transição do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico e na segunda seção, Kant mostra a: transição da filosofia moral popular para a Metafísica dos costumes. Em seguida, e em sentido inverso, ou seja, sinteticamente, na terceira seção, Kant aponta o último passo da Metafísica dos costumes para a Crítica da Razão pura prática.
Portanto, na transição do conhecimento moral da razão do senso comum para o conhecimento filosófico, por exemplo, Kant vai afirmar que todas as qualidades superiores do homem estão relacionadas com a boa vontade. No conhecimento moral da razão humana vulgar alcançamos um princípio, mesmo sem ser concebido abstratamente, esse serve como padrão dos juízos. Portanto, para corroborar com isso, é evidente como o senso comum sabe distinguir, em todos os casos que se apresentem, o que é bom e o que é mau, o que é conforme ao dever ou o que é contrário a ele. Nessa perspectiva, constata-se que é a vontade de agir por dever. Logo, para se ter o verdadeiro valor moral, é preciso que toda a ação seja executada por dever. Onde o valor moral de uma ação “depende (...) unicamente de princípio do querer...” e” o dever é a necessidade de cumprir uma ação por respeito à lei.”
Neste sentido, segundo Kant, o homem deve se portar de modo que sempre queira que a sua máxima seja transformada em lei universal.
Então, o dever, para Kant, não é um conceito empírico e sim uma ordem a priori. Porém, no homem, a vontade não é perfeita, pois o ser humano, além de ter a característica da racionalidade, encontra-se submetido às inclinações da sensibilidade. Por este motivo, as leis da razão se apresentam como imperativos categóricos. Estes podem ser definidos da seguinte forma: “... procede como se a máxima de tua ação devesse ser erigida, por tua vontade, em lei universal da natureza.”
No entanto, embora na terceira seção da Fundamentação Kant vai se preocupar em justificar a possibilidade do imperativo categórico, é na Crítica da Razão Prática que a centralidade de tal aspecto vai existir. Nessa perspectiva, na Crítica da Razão Prática, Kant objetiva mostrar que a razão pura é prática no sentido em que ela fornece a lei em que toda moralidade vai se fundamentar, na qual a lei moral é totalmente independente da experiência. Neste sentido, a vontade determina a si mesma. Isto significa que ela é só a forma da lei, ou seja, aquilo que garante a sua universalidade. Para tanto, ela precisa ser livre, logo: “a liberdade e a lei prática incondicionada implicando-se mutuamente...” .
Por este motivo, a lei moral deve ser formulada da seguinte maneira: “age de modo tal que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal...” .
Assim, para Kant, a lei moral é um fato da razão, pois a consciência do dever é comum a todos os homens. Isto nos mostra que a razão é legisladora e que ela é livre, porquanto: “a autonomia da vontade é o princípio único de todas as leis morais e dos deveres conforme a ela.” .
Na filosofia kantiana, a característica da autonomia é enfatizada, porque se o homem partisse dos conceitos de bem ou mal para determinar a lei moral, ele teria que buscá-los na experiência, esta, contudo, não garante a necessidade e nem a universalidade de tais conceitos, logo: “o conceito do bem e do mal não devem ser determinados antes da lei moral (...), mas somente depois desta lei e por ela...” .
A decorrência da explicação acima é que os conceitos do bem e do mal são a priori e daí vem o problema de como o Bem e o Mal podem ser aplicados a objetos sensíveis, portanto, Kant responde:
Só o racionalismo do juízo se mostra adequado ao uso dos conceitos morais, pois que não toma a natureza sensível senão aquilo que também a razão pura pode conceber por si mesmo, a saber, a conformidade com a lei, e não introduz na natureza supra-sensível senão aquilo que, por seu turno, possa realmente traduzir-se em ações no mundo dos sentidos, segundo a regra formal de uma lei natural em geral .
Em suma, a pergunta central do problema prático kantiano é: por que eu devo? A resposta de Kant é: eu devo, porque sou um ser racional. O dever tem a sua fundamentação na razão, onde esta dita às suas próprias leis. As suas leis vêm através de um imperativo; isto ocorre, porque o homem não é somente um ser racional, ele é também sensível. Neste sentido, o ser humano é livre, pois ele impõe para si mesmo as suas leis, onde a vontade é o seu modo de causalidade. Ela é livre quando se autodetermina, com isto, ela é autônoma.

4. A prioridade do justo em Kant

Quanto à razão prática, o projeto kantiano é deduzir, tomando como parâmetro o imperativo categórico, a ética e o direito. Para tanto:
O pertinente princípio de justiça, o da liberdade igual, é formulado por Kant na sua Rechtslehre/ Doutrina do direito ( § B ). O seu conceito moral do direito retoma o cerne da idéia de justiça, vale dizer a rigorosa imparcialidade. Ele vincula o princípio moral geral ( “lei universal da liberdade “) à condição de aplicação do direito, isto é, ao convívio (...) E Kant considera esse direito das pessoas a “menina dos olhos de Deus sobre a Terra” (Vorlesung über Pädagogik/ Preleção sobre pedagogia, p. 490).
No entanto, embora Kant relacionando o princípio moral geral (“lei universal da liberdade“) à condição de aplicação do direito, há uma distinção fundamental entre a ética e o direito, ou seja, o fundamento da ética é o próprio dever; em contrapartida, o direito é determinado por elementos sensíveis. Nele é somente considerada a exterioridade das ações e “... O Direito é, pois, o conjunto das condições sob as quais o arbítrio de cada um pode conciliar-se com o arbítrio de outrem segundo uma lei universal da liberdade...”. Assim, o direito está inscrito entre as relações intersubjetivas e ele encontra-se presente no campo das relações práticas do homem com outros homens, onde cumpre salientar que a ligação é entre dois arbítrios. Tal reação não ocorre segundo desejos, porquanto o arbítrio é a consciência da possibilidade de alcançar um fim determinado. Então:
Para constituir-se uma relação jurídica é necessário que aconteça o encontro não somente de dois desejos ou de um arbítrio com um simples desejo, mas de duas capacidades conscientes do poder que cada um tem de alcançar o objeto do desejo.
Assim, a relação de um arbítrio com o outro considera, apenas, a forma e não a matéria na relação dos dois arbítrios. Assim, o direito não vai se preocupar com os fins individuais ou utilitários do sujeito, mas, somente, em prescrever as formas na relação dos arbítrios; a preocupação é a de como se deve fazer.
Nestes termos, o problema kantiano é o que o direito deve ser, isto é, Kant vai se preocupar com a questão da justiça, isto é, “... do critério com base no qual seja possível distinguir o que é justo do que é injusto...”. Assim, a preocupação kantiana é com o que deveria ser o direito e sua correlação com o ideal de justiça. Isto leva a considerar que mesmo que não exista nenhuma legislação que corresponda ao seu ideal de justiça, a definição kantiana do que é justo continuará verdadeira, porquanto ela só indica o ideal que o legislador deveria adequar-se.
O ideal de justiça de Kant pode ser definido como justiça e liberdade. Desta forma, o direito é, assim, entendido como limite à liberdade individual, só assim todos os membros da associação podem usufruir de uma igual liberdade sempre compatível com a do outro. O que importa é a relação mútua dos arbítrios e a universalidade da lei. Nisto ocorre a coexistências de liberdades externas e Kant afirma:
Se, portanto, a minha ação ou, em geral, o meu estado pode coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal, aquele que me coloca impedimentos comete perante a mim um acto injusto; pois que esse impedimento (essa resistência ) não pode coexistir com a liberdade segundo leis universais...
Portanto, continua Kant:
A lei universal do Direito é: age exteriormente de tal modo que o uso livre do teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal; esta é, na verdade, uma lei que me impõe uma obrigação, mas que de todo não espera, e muito menos exige, que deva eu próprio restringir a minha liberdade a essas condições em virtude dessa obrigação, mas, pelo contrário, a razão diz apenas que a liberdade, na sua idéia, encontra-se limitada a tal requisito e que ela pode, no plano dos factos, ser limitada por outros
Neste sentido, o direito de cada um vai até onde começa o do outro, onde a universalidade da lei é dada a priori, fundada na liberdade que é autonomia e o problema que se apresenta aqui é o de conciliar liberdade com coação. Assim, a coação não invalida a liberdade, porquanto ela vai de encontro ao que é injusto. Ela é contrária a tudo que é contra a liberdade e a noção de direito é relacionada à noção de coação, pois o dever jurídico é a ação conforme o dever. A obrigação jurídica, então, deve basear-se na razão prática, onde a autonomia é a exigência de participação de todos na legislação.
Assim, segundo Kant, a passagem do estado de natureza ao estado civil é um dever para o homem; é a constituição do Estado, onde esta é uma exigência prática. Isto tudo acontece por meio de um contrato originário.
O contrato originário não é um fato histórico, mas uma idéia da razão, um princípio ideal que justifica racionalmente o Estado. Então, nele todos deixam a liberdade externa para retomá-la novamente como membro do estado, abandonando uma liberdade selvagem para conseguir uma liberdade que advém da vontade de legislar. Trata-se, então, de submissão à lei que o próprio homem se dar, ou seja, trata-se de ter liberdade com autonomia.
Em suma:
Com o imperativo categórico, com a idéia do contrato originário e com a formulação do princípio universal do direito, Kant abre a perspectiva do procedimentalismo e do formalismo universalista, podendo afirmar a prioridade do justo ( insistindo no universalismo que permite a coexistência de uma pluralidade de concepções do que seria a vida boa ) sobre o bem ( ou seja, concepções particulares do que seria a vida boa, a felicidade ). Essas idéias são retomadas e transformadas de maneiras distintas por Rawls e Habermas.

5. Considerações finais

O ponto de ligação entre o problema teórico kantiano e o problema prático é a questão da fundamentação. Na questão teórica eram evidentes o crescimento da ciência no século XVII e o decréscimo da metafísica, mas o que não ficava claro era por que um conhecimento a priori como o científico alcançava verdades e o conhecimento metafísico, também a priori, não as alcançava. Logo, Kant constatou que a ciência considerava, apenas, os fenômenos e seus juízos eram sintéticos a priori e a metafísica gerava antinomias e, desta maneira, contrariava até mesmo um de seus princípios mais fundamentais: o princípio da não-contradição.
Constatada a questão de que a metafísica não poderia ser considerada como conhecimento, Kant, ainda acreditava que os seus temas eram fundamentais para o ser humano, como, por exemplo, o da liberdade.
Assim, tanto como foi feito na ciência, Kant procurou fundamentar a metafísica em algo que não fosse transcendente. A razão passa a ser tratada, então, de outra forma.
E, para tanto, Kant pergunta: como pode a razão teórica determinar o conhecimento e a razão prática determinar a vontade?
Neste sentido, a razão determina o conhecimento através de intuições puras de espaço e tempo e de categorias. Por conseguinte, isto remete a um sujeito, a um eu penso e a uma necessidade fenomênica.
No âmbito da razão prática, as noções de legalidade, vontade, autonomia e liberdades estão vinculadas. Onde a vontade é um modo de causalidade, na qual a liberdade é sua propriedade, por este motivo ela se autodetermina e é autônoma. A sua validez é para todo o ser racional.
Logo, Kant só chega à idéia fundamental da filosofia prática que é aquela causalidade por liberdade, porque discutiu a causalidade fenomênica.
Nessa perspectiva, o filósofo de Koenigsberg crê que a razão prática é autônoma, assim ele procurará um princípio justificador para algo que o senso comum já sabe, mas não conhece o porquê. Daí é que surge o título da sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes.
Tanto na Fundamentação da Metafísica dos Costumes quanto na Crítica da Razão Prática é afirmado que a tradição filosófica prática sempre utilizou imperativos hipotéticos como a felicidade, a beatitude, o prazer, o bem-estar, a perfeição ou a glória de Deus. Baseado nisto podemos inferir que a tradição não tinha uma Ética. Ela era desprovida de tal saber, pois, além de não fundamentá-lo coerentemente, restringia-se a um princípio subjetivo da vontade, decorrendo disto uma pluralidade de matérias ou fins usados em função da realidade de um fim particular, qual Kant denomina de material. Isto é relacionado como algo subjetivo, válido, somente, para uma vontade humana incapaz de fornecer a universalidade e a necessidade requeridas para uma lei moral, mostrando-se, assim, insuficiente como princípio supremo de moralidade onde o caráter universal e necessário tem que prevalecer.
Em suma, a razão prática pura descobre o seu princípio na forma pura da razão, de maneira autônoma, a partir do imperativo categórico. Só, desta maneira, pode-se fundamentar a moralidade e afirmar que o fato da razão é apoditicamente certo. Ele é visto através do senso comum, mas não é através desse fundamentado. Esses fundamentos são a priori, eles estão estabelecidos por si mesmos. Caso contrário, não haveria tais princípios para o juízo moral, pois se eles fossem a posteriori não poderiam ser universalizados.
Quanto à universalidade dos princípios da razão prática, o projeto kantiano é amplo, porquanto, dentre outras coisas, relaciona a ética com o direito. Nessa perspectiva, na Metafísica dos costumes: “Depois da crítica da razão prática devia seguir-se o sistema, a metafísica dos costumes, a qual se divide em primeiros princípios metafísicos da doutrina do direito e em primeiros princípios metafísicos da doutrina da virtude...” Mas, em ampla medida, o que relaciona a ética ao direito? Kant afirma ser um tipo de liberdade que tem a própria liberdade como causa. Portanto, é na questão da liberdade que esses dois âmbitos da razão prática coincidem. Quanto ao direito, este está relacionado com a coexistência das liberdades. Portanto, para Kant, as ações dos homens podem coexistir com a liberdade de cada um segundo a lei universal do Direito que diz: age exteriormente de tal modo que o uso livre do teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal; esta, embora impondo uma obrigação, não exige, que se deva restringir a liberdade de um homem a essas condições em virtude dessa obrigação, mas a razão, somente, afirma que a liberdade, na sua idéia, encontra-se limitada a tal requisito e que ela pode, no plano dos fatos, ser limitada por outros. Portanto, é nesse ponto que se constata a distinção que Kant faz entre direito e moral, porquanto a determinação moral é interna à pessoa, enquanto que a determinação do direito ocorre no âmbito externo à pessoa. No entanto, tanto o direito como a ética tem leis universais, por esse motivo só podem ser justificados a priori e sem dados heterônomos.
Portanto, tudo o que não é lei na filosofia prática kantiana pode-se, panoramicamente, relacionar com a palavra heteronomia. Com ela se entende a decorrência e a dependência da vontade às causas e interesses externos. Os princípios heterônomos podem ser empíricos ou racionais. Os primeiros baseados no sentimento físico ou moral. Os segundos baseados na perfeição relacionada à vontade do homem ou baseados em um conceito de perfeição independente advindo de Deus o qual é causa determinante da vontade do ser humano. Neste caso, quando a ação do homem é vista determinada diretamente através da inclinação heterônoma da vontade para objetos sensíveis, tal fato não fundamenta a lei prática.
Em suma, a questão da universalidade ou do apriorismo dos princípios da razão prática (tanto na ética quanto no direito) somente foi possível após o problema teórico kantiano ter sido solucionado. Precisou Kant fornecer limites à razão no conhecimento teórico para constatar que a liberdade fenomênica não era o único tipo de liberdade possível e que existia um tipo de causalidade que se poderia admitir como livre. Tal causalidade é que pautava a razão prática tanto na ética quanto no direito.

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O CONCEITO DE HOMEM E ÉTICA EM KANT

INTRODUÇÃO 

Este trabalho é um breve aparato do pensamento kantiano, ressaltando a ética e a figura do homem, temas esses que Kant difundiu em todo o seu pensamento filosófico, onde o resultado desses estudos, principalmente a ética kantiana, que foi algo revolucionário e marcante, influenciou grandes filósofos que o sucederam, como Hengel, Husserl, Heidegger, Habermas, Dworkin e outros. A sua filosofia é tida como atual, pois ainda exerce influência no pensamento contemporâneo.
1. O homem para Kant
O homem, para Kant, definia-se como tal pela moralidade, pressupondo a liberdade comandada por essa moralidade. A moralidade, segundo retrata Kant em sua obra "Fundamentos da Metafísica dos Costumes", constitui uma série de ações praticadas conforme a autonomia da vontade, autonomia essa que consiste em escolher máximas da própria vontade, transformando-as em leis universais. A liberdade significa a propriedade da vontade, enquanto causa dos seres racionais, sendo autônoma. Kant conceitua vontade e liberdade, em sua obra acima citada, da seguinte forma:
"Vontade é uma espécie de causalidade dos seres vivos, enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade desta causalidade, pela qual pode ser eficiente, independentemente de causas estranhas que a determinem"(KANT, 1997, p. 101).
Por ser livre, o homem age conforme sua consciência, mas isso não quer dizer que ele deve agir de qualquer forma. A vontade, por de certa forma governar os desejos do homem, pode levá-lo à fortuna, ou até mesmo à desgraça. Por isso, dizia Kant que a razão não dirige, com segurança, a vontade, no que diz respeito à satisfação das necessidades do homem, onde o verdadeiro destino da razão deve ser o de produzir uma vontade boa, boa em si mesma.
1.1. A educação do homem
Numa comparação feita por Kant entre o homem e o animal, ele constatou que o homem é o único ser que precisa ser educado, onde uma geração educa a outra, ou seja, a educação se dá somente no conjunto da espécie humana. Além disso, o que também difere o homem do animal é a existência da razão humana, que é desenvolvida com treinamento e aprendizagem, ou seja, com a educação, e esse desenvolvimento é alcançado por toda humanidade, e não por um só indivíduo.
A educação é entendida como: física, compreendendo a formação dos hábitos de higiene, cuidados com a saúde, conservação do corpo, com a vida material; e prática, ou educação moral, compreendendo a formação do caráter. A formação do caráter consiste em desenvolver a virtude, ou seja, é a capacidade de agir de acordo com o dever que o indivíduo desenvolve em si, dever esse estabelecido para ele próprio, por meio da razão.
Na obra "Metafísica dos Costumes", Kant divide os deveres em limitativos, constituindo os deveres negativos, onde proíbem o homem de agir em desacordo com o fim de sua natureza; e em ampliativos, ou deveres positivos, constituindo o aperfeiçoamento de si mesmo. Cuida-se da preservação da dignidade humana nos dois deveres mencionados, levando-se em conta o afastamento dos vícios, da mentira, da falsa humildade, e outros. A dignidade humana é preservada tanto no aprendizado do deveres para com os demais, quanto para consigo mesmo.
O reino dos fins, abordado por Kant em sua obra "Fundamentos da Metafísica dos Costumes, significa a ligação de vários seres racionais por meio de leis comuns, onde tudo neste reino possui ou um preço ou uma dignidade, sendo que o que tem preço pode ser trocado por algo equivalente, mas a dignidade não se troca, colocando-se acima de qualquer preço.
Para Kant, os jovens devem ser ensinados a desenvolver os interesses por eles próprios, por aqueles que com eles cresceram, bem como o interesse pelo bem universal, orientando-os assim para a humanidade. 

2. A ética kantiana
A ética para Kant é autônoma, onde a lei é ditada pela própria consciência moral. O que o homem procura está dentro dele mesmo, tendo a liberdade de poder realizar o que achar melhor, o que for mais racional. A ética kantiana consiste num equilíbrio entre lei e liberdade.
Ela também é considerada moderna, pois confia no homem, na sua razão, e na sua liberdade. É a ética do homem empreendedor, avessa ao capitalismo consumista, pois não dá importância ao gozo dos prazeres, e sim dá ênfase aos deveres.
A liberdade para Kant consistia em formar uma lei de validade universal, para qualquer ser racional, garantindo-se igualdade a esses seres ante a lei moral universal, ou seja, a moralidade resumia-se num princípio fundamental, onde todos os deveres e obrigações dela se derivam, princípio este intitulado de imperativo categórico. 

2.1. O imperativo categórico
O imperativo categórico de Kant é único e absoluto, apesar de haver variação verbo-gramatical de uma obra para outra, ou de uma tradução para outra, sendo expressada da seguinte forma:"Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal" (KANT, 1995, p. 42).
O imperativo categórico deriva da pura razão e não da experiência, sendo um princípio a priori, ou seja, é tudo aquilo que é válido independentemente da experiência; é aquele juízo pensado universalmente. A ética kantiana consiste em agir de acordo com o imperativo categórico, onde o homem age livremente segundo a razão e seus preceitos morais, e essa ação, sendo boa em si mesma, gera uma lei universal, um imperativo categórico, uma forma segura de agir, expressado através do dever ser.
Ao afirmar que o homem não tem um preço, mas uma dignidade, Kant deu outra formulação ao imperativo categórico chamada imperativo prático:"Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca somente como um meio."(KANT, 1997, p.79).
O homem tem desejos e objetivos, e existe como fim em si mesmo. As outras coisas têm valor, sendo os meios para os fins, ou seja, os fins humanos é que lhe dão valor. O valor moral do homem está acima de qualquer preço, é a dignidade, um valor intrínseco. 

CONCLUSÃO
Kant passou a vida inteira buscando os fundamentos últimos, necessários e universais do espírito humano. Exaltou o homem enquanto ser dotado de razão, liberdade, vontade, capaz de criar uma lei universal com base na sua moralidade.
No contexto de suas idéias a ética cumpriu papel importante, ao que se retrata em sua obra "Crítica da Razão Prática", onde Kant diz que o céu estrelado sobre ele e a lei moral são as duas coisas que enchem o ânimo de admiração e veneração, quando refletidas.
A preocupação ética residia no dever, como regra racional e universal, expressado num imperativo categórico.

Dicionário de Filosofia de Mario Ferreira dos Santos

Ética
   A palavra ética é derivada da grega ethos, que significa costume. Mas é com Aristóteles que passa a ser a ciência do moral. O moral, na ética, é tanto o moralmente bom, como o moralmente mau.
   Quanto à essência do moral, e segundo as suas respostas, podemos dividir a ética em ética formal e ética material. Kant é o representante da ética formal. Afirmou que não se podia definir a moral, fundando-se apenas na experiência. É necessário um juízo de validez universal para afirmarmos que isso é bom ou mau. Nem o bom, nem o mau têm nada a ver com o agradável e o desagradável, porque o agradável pode ser moralmente mau e o desagradável moralmente bom. A experiência só pode proporcionar contingências e probabilidades. O moral, para ser independente da experiência, tem que ser dado a priori. Há de haver, portanto, uma lei moral que seja válida em qualquer circunstância. A. vida prática do homem é regulada por toda uma classe de princípios e leis, as máximas, as opiniões, etc. Essas leis são objetivamente válidas, são imperativas.
   Kant divide os imperativos em duas espécies: imperativos hipotéticos, quando são válidos em certas suposições, e imperativos categóricos, que valem sem condições.
   Como exemplo do primeiro, temos a cortesia para agradar os outros, e do segundo, o «não furtarás».
   Todas as leis morais são imperativos categóricos, os quais residem em principios aprioristicos. Portanto, a lei moral só pode dizer: “Obra de tal modo, que a máxima de tua vontade possa valer sempre em qualquer tempo como um principio universal”. Tôda a critica feita ao a priori de Kant recai predominantemente sobre a sua concepção do moral.
   A ética material pode ser considerada como ética dos bens e ética dos valores.
   A ética dos bens é aquela que torna a moral dependente dos bens reais, que são objetos de estimação do homem, ou dos bens ideais, que são objetos finais de sua estimação ou aspiração. Bom, portanto, é tudo quanto permite ou auxilia o alcance desses bens ou fins.
   Tais são o prazer, a felicidade, a utilidade, a cultura, o fortalecimento da vida, etc.
   As principais correntes da ética dos bens são: o hedonismo (de hedonai, palavra grega, que significa «eu me deleito»), que torna o moral dependente do prazer sensível. Os cirenaicos defenderam essa doutrina que, esporàdicamente, surge na obra de alguns autores materialistas.
   O eudemonismo (de eudaimonia, que significa felicidade) tem como fim a felicidade espiritual, o estado de contentamento da alma. Foi essa doutrina defendida por Sócrates.
   O utilltarismo é a doutrina que defende a moral pela utilidade ou bem-estar do individuo ou da coletividade.
   O perfeccionismo afirma que o moral está na plena realização da essência humana, na perfeita condução, segundo a natureza racional do homem. Era essa a opinião de Aristóteles.
   O naturalismo prega o pleno desenvolvimento de todas as inclinações e impulsos da natureza humana, como fato de moralidade.
   O evolucionismo afirma que o progresso da humanidade é o fim determinante da moralidade.
   A ética religiosa afirma que a moralidade está na conformidade com a vontade de Deus, e o mal é rebelar-se contra essa vontade.
   Outra divisão, que se pode fazer sobre a ética dos bens, consiste em fundá-la no destino que se dê aos bens ou fins a que se aspira: se tendem para o individuo temos o individualismo, se para a comunidade, temos o universalismo. O individualismo é egoísmo, quando o que atua quer ser útil a si mesmo; é altruísmo, quando quer favorecer a outros. Por isso, pode haver um individualismo altruísta, quando se destinam aos indivíduos da coletividade os bens ou fins desejados.
   Critica-se a ética dos bens, em todas as suas tendências, porque não explica a moral, por já a aceitar previamente como dada.
   Quanto à ética dos valores, esta está ainda em seus primórdios, apesar de já haver uma bibliografia extraordinàriamente vasta, e estudos notáveis como os de Scheler, Nicolai Hartmann, etc.
   Os defensores desta corrente afirmam que uma ação não pode ser nem boa nem má. Uma ação é um processo psíquico ou psicológico, que se dá num lugar e no tempo. A ação transcorre; é simplesmente. E nesse ser está toda a sua realidade. É apenas uma simples existência que, passada, não deixa mais rasto. É acaso verdadeiro ou falso o curso da corrente de um rio? E o vento que sopra, é verdadeiro ou falso? Estes processos simplesmente são. A própria vontade é constituída, dizem, por processos apenas, e nada mais. Não são bons nem maus, como tampouco podem ser verdadeiros ou falsos... O que há de bom ou de mau são os valores, e os valores não são, valem. E é desses valores que tais ações são dependentes para que, em sentido translatício, possam ser chamadas de boas ou más. Os valores éticos não são pensamentos, porque os pensamentos são verdadeiros ou falsos.
   A um valor positivo antepõe-se sempre um valor negativo, que lhe corresponde. Só os valores podem ser bons ou maus.
   Um pensamento não é bom nem mau. E quando se diz isso em linguagem comum, faz-se em sentido translatício, porque ser bom ou ser mau cabe só aos valores. Nisso está a forma de realidade dos mesmos.
   A ética dos valores é uma nova corrente do pensamento que ainda não deu seus melhores frutos.
   Quanto à origem da força obrigatória dos preceitos morais, podemos dividir, sob este angulo, a ética, em ética heterônoma e ética autônoma. A heterônoma afirma que o fundamento da obrigação moral vem de uma lei estranha ao individuo. Segundo ela, a vontade se submete a uma vontade superior, vinda de Deus ou do Estado, etc. A autônoma aceita leis próprias e afirma que ela deve vir do próprio cumprimento da ação moral. Esta é a defendida pela maioria dos éticos.
  Quanto a origem, pode dividir-se a ética em ética apriorística, que a afirma independentemente da experiência (a de Kant, por exemplo) e ética empírica, que afirma provir o moral da experiência. Entre os primeiros temos Sócrates, Kant, Platão, Aristóteles, Descartes, Spinoza, Leibnitz, etc. Entre os que defendem a segunda posição, temos Spencer, Darwin, Morgan, Luboock, Bastian, e muitos outros. Uma terceira escola, não examinada pelos éticos, é a da ética imanente, defendida por Proudhon, e que foi completada por Kropotkine. Para Proudhon. a ética é imanente a todo o humano, e há principias fundamentais de ordem intrínseca em todas as coisas, atos, processos do homem. Kropotkine quis fundar uma ética biológica, em base no apoio-mútuo. Os animais bissexuados necessitam apoiar-se uns nos outros. O homem não pode viver isolado, e necessita de seus semelhantes. Toda a vida em comum é uma vida de apoio-mútuo, em que uns têm de apoiar-se nos outros por uma necessidade biológica.
   Por isso, tudo quanto fortaleça esse apoio, a união entre os homens, o fortalecimento do individuo, sempre em beneficio da coletividade, é moral.
   A moral está fundada, assim, na própria biologia. O homem, com suas idéias, nada mais faz do que concretizar, no mundo do espírito, o que é ensinado pela sua natureza biológica.
   A Ética, como ciência concreta, é por nós mostrada em nosso “Sociologia Fundamental e Ética Fundamental”.
   Critica: Os homens mantêm relações entre si. E as discipli nas, que estudam essas relações, as normas que as orientam, os usos e costumes dos diversos povos (ethos, em grego, e mor, moris, em latim) são a Ética e a Moral. Muitas vezes confundidas, uma com a outra, merecem, no entanto, que as distingamos. A Moral tem um campo mais amplo, pois estuda, descritivamente, os diversos costumes estabelecidos entre os povos, através das eras, suas variações, transformações, modificações. Tomando como objeto esses costumes, que são os mores, é construída a Ética, como disciplina especifica, a qual procura o nexo que os liga, os princípios que os regem, os meios que utiliza e os fins a que se destinam. Assim a Ética é a ciência da Moral. Hegel distingue a moralidade subjetiva (Moralitat) e a moral objectiva (Sittlichkeit). Referia-se a primeira ao cumprimento do dever pela vontade, e a segunda, à fixação das normas, leis e costumes, ao espírito objetivo na forma da moralidade. A Ética é a ciência que engloba, como objeto, esses costumes, e os correlaciona com o corpo da Filosofia Geral.
   Em face das variações que se observam nos costumes, que são diferentes segundo os diferentes agrupamentos, no tempo e no espaço, e segundo até a estrutura social, é óbvio que surgisse, para os estudiosos de tema tão vasto, uma primeira pergunta: há, na moral, regras invariantes, constantes, ou apenas variáveis? Essa pergunta, se respondida positivamente, provocaria logo outra: se há regras invariantes, quem as estabeleceu, e como? Se não há, são apenas produtos de convenções humanas? E logo surgem outras perguntas, tais como: quem estabelece essas normas? São impostas ou livremente aceitas? Para que tende a Moral? Qual a sua finalidade? Que orienta, que dirige o homem na aceitação de normas que regularizam as relações humanas?
   Tais perguntas já nos mostram, suficientemente, quão grande é o campo de atividade dos estudos éticos. E cercando essas perguntas, poderia ainda surgir essa nova pergunta: que valor tem para nosso estudo o conhecimento da Ética?
   Iniciando a responde-las, começariamos pelo fim. Não há agrupamento humano que não tenha normas que regulem suas relações. Ora, se observarmos bem o homem, sabemos que ele se distingue dos animais por ter espírito, e impregnar com o seu espírito os bens que ele cria, capta ou domina. Os animais não têm moral. São amorais, porque não tomam uma atitude contra o moral, nem a favor deste. Os animais vivem, movimentam-se, convivem entre si, seguindo seus instintos, conservando suas relações. Salvo casos excepcionais de degenerescência, cumprem fielmente as condições da espécie à qual pertencem. Só o homem pode ser moral ou anti-moral. E Isso por quê? Porque o homem escolhe, pensa, julga, compara, medita, induz, deduz, frustra.
   O homem tem normas que variam através dos tempos, normas que regulam suas relações. Os que atualizam apenas essa variabilidade das normas concluem que a moral é relativa, porque a daqui não é a dali. Portanto, a moral não pode constituir-se numa ciência, mas apenas permanecer no terreno do descritivo. Mas, em face dessa situação, podemos desde logo estabelecer que a Ética pode ser visualizada de duas formas:
   Ética invariante: aceita normas constantes, independentes das condições históricas, geográficas, étnicas, etc.;
   Ética variante: aceita que os costumes variam, segundo variem as condições gerais.
   Colocando o problema da Ética neste pé, logo se torna fácil ver que as perguntas surgem exigentes. Se há um invariante, e o homem o percebeu, o notou, o visualizou, deve ter sido ele estabelecido por alguém. Tomam, aqui, alguns éticos a posição transcendentalista, os quais afirmam que uma divindade, um deus, estabeleceu as normas sob cuja obediência deveriam viver os homens, sob pena de ofenderem essa mesma divindade; portanto, pecarem. Temos aqui a posição religiosa, que aceita ter dado Deus ao homem suas leis morais, concrecionadas nos dez mandamentos, que são a síntese dos princípios éticos. Desta forma a ética não é estabelecida pelo homem, mas por Deus. Quando a moral é estabelecida por outrem, diz-se que ela é heterônoma (de heteros, outro, em grego, e nomos, norma, lei, regra).

   Assim a norma moral tem sua origem em outro que a impõe. Quando a moral é estabeleclda pelos próprios agentes que a praticam, temos a moral autônoma (de autos, si mesmo). Dessa forma, a moral seria heterônoma. Mas poderia, em casos especiais, Isto é, na formação de comunidades específicas, ser estabelecida autônomamente, mas sempre obedecendo às normas dadas heterônomamente.
   Mas outros pensam de modo diferente. Nenhuma divindade estabeleceu normas para as relações humanas. Estas nascem de convenções, de hábitos, transformados em leis morais, depois de devidamente estabelecidos, fundados e consagrados pela prática. Negam esses a origem transcendental da moral. Ela é de origem humana, cheia dos defeitos e das fraquezas naturais do homem.
   Desta forma, aquele imperativo categórico de validez universal, que buscam todos os que defendem uma posição invariante na Ética, ou em outras palavras, os que buscam um principio universalmente válido invariante, aceito por todos os povos, em todas as eras e condições, nem todos admitem que os invariantes na moral sejam todos transcendentalistas. Há uma outra posição, que é a dos imanentistas. Os imanentistas afirmam que as normas morais, as quais os homens obedecem em suas relações, têm sua origem fundamental na própria estrutura social criada.
   Já vimos que cada agrupamento social forma uma estrutura e essa estrutura é mais sólida, ou não. Forma uma tensão, que é mais coerente ou não. Essa tensão exige dos elementos que a compõem, para formar sua coerência, um respeito a certas normas ou até certas atitudes, sob pena de ser rompida. Digamos que um grupo de caçadores reúne-se para caçar. É natural, é intrínseco ao bom êxito da caçada, que cada um trabalhe em benefício do fim almejado. Se um caçador espantar a caça prejudicaria aos outros e até a si mesmo. Logo se vê que, numa caçada em conjunto, é imanente a ela a necessidade da obediência a certas regras, sob pena de não alcançar o fim desejado.
   Cada estrutura, que se forma, tem a sua moral, tem a sua norma ética, e estas serão tantas quantas as variadas composições estruturais. Vê-se, fàcilmente, que em todas as eras, independentemente das classes e das condições sociais, os homens obedecem a um número determinado de princípios, que se repetem invariàvelmente em todos os povos. Vejamos alguns: nenhuma mãe, salvo os casos teratológicos, deixa de dar assistência ao filho; e é moral fazê-lo. Em todas as coletividades, todo ato, que ponha em risco a mesma, é punido, porque é considerado imoral.
   Essas normas são invariantes. E poderíamos dizer: toda tensão formada, à proporção que for mais forte em sua estrutura, considerará como intensivamente imoral todo o ato que perturbe a sua conservação. Os elementos, que formam uma fraca estrutura, uma tensão frágil, como a de um grupo, que se reúne em torno de um “camelô”, que apregoa as vantagens das bugigangas que oferece, tensão passageira, transeunte, rápida e não perdurável, considerará imoral o ato daquele que perturbe essa tensão, e não permita que se ouçam as palavras do “camelô”. Mas como é uma tensão fraca, essa indignação ao perturbador também será fraca. Mas se for uma tensão já formada numa sala de projeção de um cinema, quem a perturbe será repelido, já com maior indignação. E se estivermos numa igreja, durante uma missa, em que se congregam pessoas que devem, pelo menos, crer piamente na sua religião e no seu culto, a indignação crescerá contra quem perturbar a tensão formada.
   É fácil dai, por graus, chegar até à indignação que provocaria quem matasse um membro de uma coletividade, e esta necessita manter suas forças para defender-se dos adversários, pois verifica-se que a tensão aumenta na proporção também da tensão contrária que a ameaça.
   Assim se vê que os defensores de uma ética imanente têm suas bases bem sólidas. Quem sobretudo estudou essa ética imanente, e a defendeu, foi Proudhon, seguido, posteriormente, por Nietszche, em certos aspectos, e por
Kropotkine. É a ética imanente o fundamento das doutrinas libertárias, que aceitam a possibilidade de uma ordem natural entre os homens, fundada nas tensões que formam, e que procuram conservar-se, porque, na realidade, toda a ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados.
   Portanto, se a sociedade for organizada sob bases simples e naturais, formará, naturalmente, sua ética, não como uma necessidade apenas, mas porque o homem sabe descobrir o que lhe convém para ordenar as suas relações, porque sabe escolher. Por isso os homens, quando se reúnem para um fim comum, logo sabem deduzir de sua organização as regras e princípios justos (ajustados), que permitam conquistar, da melhor forma, o fim a que visam, como se vê na formação das sociedades de qualquer espécie, através dos princípios fundamentais de suas normas estatutárias.
   Nas épocas de religiosidade, a ética é quase sempre de fundo religioso; portanto, transcendente. Nesse caso, os princípios éticos são julgados como impostos pela divindade para que os homens se dirijam, e todo atentado aos mesmos é uma afronta à própria divindade.
   Essas normas não são facultativas, isto é, podem ser indiferentemente cumpridas ou não. Ao contrário, são imperativos categóricos e não podem ser desobedecidos.
   Caracteriza, assim, o ato ético, o ato frustrável pelo homem, quando implique ele o respeito ou não a valores correspondentes à conveniência da natureza de uma coisa, ao seu bem (o seu direito). O ato anti-ético é o que ofende a esse direito, ou a norma instituída, fundada na conveniência de algo ou alguém. É da essência do ato ético a frustrabilidade.
   ÉTICA (História da) - Vamos encontrar os estudos éticos desde a mais longínqua antiguidade. Entre os chineses, verificamos que o pensamento de Lao-Tse, de Confúcio e de Mêncius (Kon-Fu-Tsê, Meng-Tsê) é predominantemente ético, sobretudo o dos últimos, pois, no primeiro, no Livro do Tao, encontramos afirmações de tal ordem que revelam a precedência de uma longa especulação, esotericamente conduzida.
   Contudo, não se vê nos livros chineses uma especulação em torno de temas éticos, à semelhança do que se observa no pensamento grego e no ocidental.
   Na obra dos hindus, caldeus, egípcios, etc., também se observa a presença constante de máximas éticas. Mas a sistematização dos estudos sobre essa disciplina, cabe, propriamente, pelo menos em sentido exotérico, aos gregos.
   É com os gregos que se estruturaram• sistemas éticos, expostos filosoficamente. Entre as manifestações mais notáveis, que influem no pensamento ocidental posterior, temos a salientar o hedonismo (de hedon, prazer) exposto por Aristipo Cirenaico (435-355), para o qual o bem supremo é a voluptuosidade, e, predominantemente, a corporal.
   Há um hedonismo mitigado, o de Epicuro (epicurismo) (341-270), que afirma que também é a voluptuosidade o bem supremo. Mas, como há uma escala de valores na voluptuosidade, há também a presença dos valores intelectuais.
   Com Antístenes e Diógenes Sinopense (414-324), a virtude tende apenas para o bem; e para a conquista da felicidade, basta a virtude. Convém não esquecer que o termo cínico tomou, posteriormente, um sentido pejorativo, pela hipocrisia manifestada por alguns filósofos dessa escola, que, na verdade, não praticavam o que pregavam em palavras.
   Com os estóicos, cuja figura maior é Zeno (342-270), seguido por Cleanto e Crisipo, a virtude está na congruência entre a vida e a razão. Não é suficiente o cumprimento exterior do ato virtuoso, mas, sobretudo, a purificação da intenção. Entre os estóicos sobrelevam-se as manifestações morais, e esplendem homens virtuosos, de um valor inestimável, que dão um testemunho vigoroso do valor dessa escola.
   Conhecemos a ética pitagórica, através dos “Versos áureos”, de Lysis, atribuídos a Pitágoras. Os trabalhos especulativos dos pitagóricos da fase de Crótona permanecem esotéricos. Só os versos áureos foram dados ao conhecimento exotérico e, por essa razão, tratar dos fundamentos filosóficos da ética pitagórica exige outras providências e percorrer outras vias.
   Com Sócrates (cuja origem pitagórica é hoje indiscutível), surge uma escola, que teve um papel extraordinário no desenvolvimento dos estudos éticos. Sócrates (470-399) expõe sua doutrina, que foi continuada por Platão (427-347) e, posteriormente, por seus seguidores.
   O idealismo platônico (que na verdade é realista) estabelece que a vida ética é gradativamente mais elevada pela adequação desta às idéias (eide) superiores, analogadas à forma do Bem. A vida exige um exercício constante do homem para alcançar essa base superior, que consiste na imitação dos valores mais altos, ùnica via capaz de assegurar a felicidade.
   Aristóteles (384-322), inegavelmente o maior sistematizador da filosofia grega, deu à Ética bases muito seguras. Sua obra grandiosa e imperecível é uma eterna sugestão para os mais profundos estudos em matéria de tal magnitude. Suas teses principais afirmam que o fim do homem é a felicidade temporal da vida de conformidade com a razão, e que a virtude é o caminho dessa felicidade, e esta implica, fundamentalmente, a liberdade.
   No pensamento latino, não encontramos uma nova sistematização, mas apenas seguem seus autores as diversas linhas traçadas pelas escolas gregas. Sobressaem entre estes Cicero (104-43), que é eclético, e os grandes estóicos, como Epicteto (50-120), Marco Aurélio (121-180) e Sêneca (2-65).
   A influência cristã nos estudos éticos - Com o advento do cristianismo, podemos estabelecer dois períodos importantes dos estudos éticos. O primeiro, que é o da patrística, e segundo, o da escolástica (com suas fases: a medieval, a do renascimento e a restaurada, que é a moderna).
   Entre os padres apologetas, não há propriamente uma sistematização dos estudos éticos. Fundados nos princípios estabelecidos pelo cristianismo expõem as suas opiniões, segundo a revelação dos livros sagrados. Podemos anotar os nomes de Origenes, Cipriano, Atenágoras, Crisóstomo, Basilio, etc. .I
   Entre todos esse nomes, surge, como a maior figura desta época, Santo Agostinho (354-430), que já trata dos temas éticos com método filosófico.
   No período escolástico, na fase medieval, o predomínio das idéias éticas de Aristóteles torna-se evidente. E o período das Summas e é neste que surgem os maiores pensadores da Igreja, como São Boaventura (1221-1274), São Tomás (1225-1274), Duns Scot (1270-1308),
   Na fase renascentista, em que, seguindo os caminhos indicados pelos anteriores, processam-se agudíssimas análises, algumas caracterizando-se pelo excesso de sutileza, temos os nomes de Vitória, Soto, Bañez, Mastrius, Dupasquier, Molina, Lessius, Valência, Vasquez, Lugo, Fonseca e o grande Suarez (1548-1617). Os estudos alcançam aqui tais estágios, que a obra desses grandes autores é imortal.
   No século XIX em diante, processa-se a terceira fase, a da escolástica restaurada, na qual vão surgir as tendências neotomistas, neo-escolásticas, em que os estudos sobre a “questão social” crescem de extensão e intensidade.
   As contribuições da Filosofia moderna - Com o movimento protestante, foram agitados os problemas e os temas éticos, mas sob outras bases, distintas das empreendidas pelos filósofos escolásticos. Procuraram aqueles dar à Ética um fundamento não baseado na revelação, mas nos valores éticos, examinados e procurados de p'er si. Se os escolásticos afirman1 a temeridade de tais estudos e da postulação meramente axiológica, convém, contudo, que se tenha em mente, que tais pesquisas não põem em xeque os ideais éticos. E se alguns caíram em erro, veremos, contudo, no campo da filosofia pelo menos, que a investigação deve processar-se dentro do âmbito daquela. A revelação religiosa pertence à religião. O filósofo ético deve procurar os fundamentos ontológicos dessa disciplina, tão longe quanto lhe é possível alcançar.
   Entre os protestantes, sobressaíram, por seus trabalhos, Bodin, Grotius, Pufendorf.
   Entre os autores, independentes, podemos salientar os seguintes, anteriores a Kant: Hobbes (1588-1679), Spinoza (1632-1677), e, nos séculos XVII e XVIII, Shaftesbury (1671-1713), Reid (1710-1796), Helvetius (1715-1771) Holbach (1723-1789) Saint-Simon (1760-1825), etc.
   Com Kant (1762-1814) são procurados novos fundamentos para a Ética, baseando ele os seus postulados, propriamente na razão prática; isto é, fundando-os na consciência humana, ao mesmo tempo que afirma sua indemonstrabilidade dentro da razão pura, da razão meramente integral.
   Seguiram-se a Kant os trabalhos de. Fichte (1762-1819), Hegel (1770-1831), Schelling (1775-1854), Krause (1781-1832), Comte (1798-1857), Stuart Mill (1806-1873), Friedrich Paulsen (1846-1908), e ainda Herbart (1776- 1841), Schopenhauer (1788-1860), Spencer (1830-1903), Nietzsche (1844-1900) e, mais próximos a nós, Durkheim (18581917), Lévy-Bruhl (1857-1939).
   Com Scheler (1874-1928), Müller, Ortega y Gasset, etc., penetra-se na ética axiológica (que a estuda do ângulo dos valores).
  ÉTICA (Métodos da) - Vide Ética.
   Vários métodos têm sido propostos através dos tempos, pelos que melhor se dedicaram ao estudo dos temas éticos.
   Nos primórdios desses estudos, houve, naturalmente, tendência a confundir as normas éticas com as normas lógicas, o que não deixa de haver positividade, pois aquelas são, de certo modo, lógicas, como ainda mostraremos.
   Há os que se colocam apenas no exame empírico dos fatos éticos, considerando-os como meramente históricos, como manifestações dos costumes humanos das normas estabelecidas para as relações humanas e a melhor convivência entre os indivíduos. Inegàvelmente, tal método tem seus aspectos positivos, pois a experiência é uma grande mestra das mais espontâneas manifestações éticas.
   Há os que prescindem da experiência, da história até, como o procedem os rousseaunianos, que a fundam num direito natural puro, tomado da natureza humana abstratamente considerada. O prescindir da experiência é excluir uma positividade, como seria prescindir da lógica, mas afirmar um fundamento natural puro da ética não falece de positividade, como o fazem os rousseaunianos.
   Há os racionalistas que aceitam apenas o fundamento na razão humana. Há, também, neles, uma positividade, mas ao rejeitarem outras, cometem um erro, pois ao afirmarem que só a razão humana é capaz de alcançar as normas éticas, negam uma razão transcendental, e até uma razão sobrenatural.

   Esta é, por exemplo, a posição dos socialistas e dos totalitários, que chegam a afirmar que apenas atuam na formação das normas éticas, a razão natural ou razões históricas, de classe, de raça (racistas), de casta, de nação, de estirpe, como vemos nos estatolatras, nos adoradores do Estado político.
   Se considerarmos a moral historicamente, há certa positividade nessas posições, verdadeiras enquanto atualizam certos aspectos positivos, mas falsas ao virtualizarem outras positividades que elas inibem e ocultam.
   Para os tradicionalistas, a razão não é suficiente nem capaz para dar as normas sociais, que são transmitidas por revelação divina.
   Para os historicistas é a história que cria as normas morais, pois é ela a fonte de todos os costumes.
   Para os fideistas, a razão é impotente, e só a fé é capaz de nos indicar as normas morais.
   Para os agnósticos, nada sabemos ao certo sobre as normas éticas; ou só sabemos o que nos é dado pela experiência, como o afirmam os positivistas.
   Para os evolucionistas, tendo o homem alcançado um estado superior de inteligência e de vontade, a moral estabelece-se como um grau mais elevado dessa evolução natural do homem até alcançar a inteligência e o livre-arbítrio, a escolha livre e, desde então, é a vontade que preside ao desenvolvimento da evolução, buscando o homem alcançar o mais forte e o mais elevado, através do processo da própria inteligência e o da vontade.
   Para outros, são as leis morais apenas variantes e mutáveis, como afirmam os cépticos e os sociologistas. A norma moral é captada do exame do caso concreto sociológico, e atende apenas aos interesses mais ou menos explícitos do grupo social em que são instituídas.
   Não é difícil perceber-se que há em todas essas doutrinas aspectos positivos.
   A posição empírico-especulativa é a mais consentânea com o exame do fato ético, pois partindo da observação dos fatos, através da especulação, procura alcançar os princípios gerais que explicam aqueles fatos.
   ÉTICA E MORAL - A distinção entre Ética e Moral se impõe por diversos motivos e razões. Se os termos mos, em latim, e ethos, em grego, serviram para nomear duas disciplinas, estas se distinguem, embora a segunda se subordine ontologicamente à primeira.
   Se a filosofia clássica não distinguia propriamente a Ética da Moral, pois ambos termos eram usados sinonimicamente, é preciso considerar que, após o advento das idéias modernas, e das diversas posições tomadas ante essas disciplinas, há necessidade de distingui-las. Pois, enquanto a segunda se refere aos costumes estabelecidos entre os homens, a primeira dedica-se ao estudo das normas éticas invariantes. Para quem se coloca na posição que afirma não ter a Ética outra origem senão nos costumes humanos, para quem assume uma posição sociologista, empirista, positivista, pragmatista, etc. é válida apenas a Moral, e neste caso, a Ética é apenas aquela: a ciência dos costumes humanos, Para quem busca as raízes mais profundas dos nossos costumes, as leis invariantes que os regem, considera aqueles como símbolos das normas éticas, que são os simbolizados. Neste caso, a Ética já impõe uma via symbólica, pois é mister partir do que se dá na experiência humana para captar os logoi que analogam os costumes, Tais logoi serão as razões éticas superiores, cujas busca cabe propriamente ao etólogo.

Aristóteles: a felicidade como sabedoria prática

 
Aristóteles (384-322 a.C) nasceu em Estagira (Macedônia). Seu pai era médico do rei Felipe da Macedônia. É considerado juntamente com Sócrates e Platão um dos mais influentes filósofos gregos do mundo ocidental.  Foi aluno de Platão e educou Alexandre, o Grande. Criou o pensamento lógico e a biologia como ciência.  “Em suas obras sobre a natureza, Aristóteles tentou descobrir uma hierarquia de classes e espécies (…). Ele estava convencido de que a natureza tinha uma finalidade e que cada traço específico de um animal existia para cumprir uma determinada função”. (Strathern, 1997, p.24).  Dessa forma, Aristóteles foi o primeiro filósofo a valorizar a observação e a experiência em seus estudos e por isso pode ser considerado o pai do  método científico. Aos 17 anos foi para Atenas, o maior centro filosófico e artístico de toda antiguidade, matriculou-se na escola de Platão e lá permaneceu por vinte anos, até 347 a.C. Após a morte de seu mestre fundou sua própria escola, o Liceu. Ao contrário da Academia, que valorizava o pensamento teórico, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Dirigiu o liceu até 324 a.C. Com a morte de Alexandre surgiram sentimentos xenófobos antimacedônios em Atenas, sentindo-se ameaçado Aristóteles fugiu afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia, assim como cometerá com Sócrates. Apesar de sua escola ter privilegiados as ciências naturais Aristóteles também pensou os problemas políticos e sociais de sua época, assim como se debruçou sobre os problemas éticos e morais.  Em seu livro “Ética e Nicomaco” Aristóteles pensou profundamente sobre a felicidade humana. 
         Para Aristóteles a felicidade não está ligada aos prazeres ou as riquezas, mas a atividade prática da razão. Em sua opinião,  a capacidade de pensar é o que há de melhor no ser humano, uma vez que a razão é nosso melhor guia e dirigente natural.   Se o que caracteriza o homem é o pensar, então esta e sua maior virtude e, portanto, reside nela à felicidade humana.  “Aristóteles, fiel aos princípios de sua filosofia especulativa, e após ter feito uma análise e um estudo da psicologia humana, verifica que em todos os seus atos o homem se orienta necessariamente pela idéia de bem e de felicidade e que nenhum dos bens comumente procurados (a honra, a riqueza, o prazer) preenche esse ideal de felicidade. Daí a sua conclusão: primeiro, a felicidade humana deverá consistir numa atividade, pois o ato é superior a potência; segundo, deverá ser uma atividade relacionada com a faculdade humana mais perfeita que é a inteligência (…)”. (Costa,1993, p.67) 

        Em seu livro “Ética e Nicômaco”  Aristóteles mostra-nos que os homens se tornam o que são pelo hábito. Os homens se tornam bons engenheiros construindo, e se tornam músicos tocando, da mesma forma um homem torna-se justo praticando atos justos e mal praticando atos maus. Um homem torna-se um bom ou mau músico por tocar bem ou mal. Um escritor torna-se um bom ou mau escritor por escrever bem ou mal. Assim como um mau músico não tem o hábito de tocar, também o mau escritor não tem o hábito de pensar e escrever.   Dessa forma para se tocar música ou escrever bem é necessária a excelência, é necessário o engajamento, é necessário o hábito. A pratica continua de uma atividade ou de um comportamento nos possibilita internalizar aquele hábito. Somente a prática leva a excelência. Esse raciocínio serve para todas as atitudes e atividades humanas. Pelo hábito de sentir receio ou confiança tornamo-nos covardes ou corajosos. O mesmo se aplica aos desejos e a raiva, por se comportarem da mesma forma e do mesmo modo em todas as circunstâncias algumas pessoas tornam-se moderadas e amáveis, outras se tornam concupiscentes ou irascíveis. É por isto que devemos fazer uso da razão em nossas escolhas e atividades. Devemos sempre desenvolver nossas atitudes e atividades de uma maneira racional.      
    
       A felicidade para Aristóteles corresponde ao hábito continuado da prática da virtude e da prudência. Por sua própria natureza os homens buscam o bem e a felicidade, mas esta busca só pode ser alcançada pela virtude. A virtude é entendida como Aretê – excelência. É somente através do nosso caráter que atingimos a excelência. A boa conduta, a força do espírito, a força da vontade guiada pela razão nos leva à excelência. Dessa forma, a felicidade está ligada a uma sabedoria prática, a de saber fazer escolhas racionais na vida. É feliz aquele que escolhe o que é mais adequado para si. 

        A razão é a faculdade que analisa, pondera, julga, discerne. Ela nos permite  distinguir o que é bom ou mau,  a distinguir os vícios das virtudes. Ela  nos permite fazer escolhas pertinentes para nossa felicidade. Por exemplo, a temeridade é um vício por excesso, a covardia é um vício por falta; o meio termo é a coragem, que é uma virtude. O orgulho é um vício por excesso,  a humildade um vício por falta; o meio termo é a veracidade, que também é uma virtude. A inveja é um vício por excesso, a malevolência é um vício por falta; o meio termo é a justa indignação. Para Aristóteles toda escolha exige uma mediania, um equilíbrio entre o excesso e a falta.  Na vida não podemos ser imprudentes e impulsivos se arriscando em situações perigosas. Por outro lado,  também não podemos ser covardes e ter medo de tudo deixando que o medo nos domine. É necessário o meio termo entre esses dois sentimentos, devemos enfrentar os medos e perigos sabendo agir com bom senso. O mesmo raciocínio serve para alimentação, não podemos comer muito para passar mal do estômago, assim como não podemos evitar comer, pois também vamos adoecer. Devemos comer com moderação. Por esta ótica, também podemos pensar os sentimentos.  Na vida não podemos ser vaidosos preocupando-nos apenas com nossas qualidades, satisfazendo sempre o nosso ego. Por outro lado, também não podemos ser muito modestos,  achando que somos inferiores. É necessário auto-estima, sabendo reconhecer através da razão nossos defeitos e nossas qualidades. Para Aristóteles, portanto,  devemos sempre escolher o meio termo, sendo moderados em tudo que fazemos na vida. Somente assim atingiremos o bem e a felicidade.    


 Bibliografia
Aristóteles. Ética a Nicômaco. Edipro, São Paulo, 2007
Costa, José S. Tomás de Aquino: a razão a serviço da fé. São Paulo: Moderna, 1993
Stratheer, Paul. Aristóteles em 90 minutos.  Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1997.

A concepção de felicidade na Ética aristotélica

O homem bom e virtuoso é aquele que alia inteligência e força, que utiliza adequadamente sua riqueza para aperfeiçoar seu intelecto

A palavra ethos é de etimologia grega e significa comportamento, ação, atividade. É dela que deriva a palavra ética. A ética é, portanto, o estudo do comportamento, das ações, das escolhas e dos valores humanos. Mas no nosso cotidiano ocorre de percebermos que há uma série de modelos de “éticas” diferentes que postulam modos de vida e de ação, por vezes excludentes. Qual é o melhor tipo de vida (se é que há um)? O que é a felicidade? É melhor ser feliz ou fazer o bem ou o que é certo?
Perguntas como essas são feitas em todas as épocas da história humana. E desde a antiguidade clássica dos gregos, já havia muitos modelos de respostas para elas. Uma delas é a fornecida pelo filósofo Aristóteles, famoso por sua Metafísica. Vamos nos aprofundar um pouquinho mais no que ele tem a nos dizer.

Em seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles consagrou a tão famosa ética do meio-termo. Em meio a um período de efervescência cultural, o prazer e o estudo se confrontam para disputar o lugar de melhor meio de vida. No entanto, a sobriedade de nosso filósofo o fez optar por um caminho que condene ambos os extremos, sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.

A metrética (medida) que usa o estagirita (Aristóteles era chamado assim por ter nascido em Estagira) procurava o caminho do meio entre vícios e virtudes, a fim de equilibrar a conduta do homem com o seu desenvolvimento material e espiritual. Assim, entendido que a especificidade do homem é a de ser um animal racional, a felicidade só poderia se relacionar com o total desenvolvimento dessa capacidade. A felicidade é o estado de espírito a que aspira o homem e para isso é necessário tanto bens materiais como espirituais.

Aristóteles herda o conceito de virtude ou excelência de seus antecessores, Sócrates e Platão, para os quais um homem deve ser senhor de si, isto é, ter autocontrole (autarquia). Trata-se do modo de pensar que promove o homem como senhor e mestre dos seus desejos e não escravos destes. O homem bom e virtuoso é aquele que alia inteligência e força, que utiliza adequadamente sua riqueza para aperfeiçoar seu intelecto. Não é dado às pessoas simples nem inocentes, tampouco aos bravos, porém tolos. A excelência é obtida através da repetição do comportamento, isto é, do exercício habitual do caráter que se forma desde a infância.

Segundo Aristóteles, as qualidades do caráter podem ser dispostas de modo que identifiquemos os extremos e a justa medida. Por exemplo, entre a covardia e a audácia está a coragem; entre a belicosidade e a bajulação está a amizade; entre a indolência e a ganância está a ambição e etc. É interessante notar a consciência do filósofo ao elaborar a teoria do meio-termo. Conforme ele, aquele que for inconsciente de um dos extremos, sempre acusará o outro de vício. Por exemplo, na política, o liberal é chamado de conservador e radical por aqueles que são radicais e conservadores. Isso porque os extremistas não enxergam o meio-termo.

Portanto, seguindo o famoso lema grego “Nada em excesso”, Aristóteles formula a ética da virtude baseada na busca pela felicidade, mas felicidade humana, feita de bens materiais, riquezas que ajudam o homem a se desenvolver e não se tornar mesquinho, bem como bens espirituais, como a ação (política) e a contemplação (a filosofia e a metafísica).

João Francisco P. Cabral
 Universidade Federal de Uberlândia - UFU

A Ética para Aristóteles

A ética aristotélica inicia-se com o estabelecimento da noção de felicidade. Neste sentido, pode ser considerada uma ética eudemonista por buscar o que é o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude. A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo com uma perfeita virtude. Partindo dessa definição, faz-se necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, faz-se necessário, também, o estudo da natureza da virtude moral. Como a virtude moral é consistida por uma mediedade relativa à nós, analisaremos o conceito de mediania (mediedade ou justa-medida) assim como aparece no livro II de Ética a Nicômaco.

Virtude Moral e Intelectual

Aristóteles define a virtude moral como disposição – já que não podem ser nem faculdades nem paixões – para agir de forma deliberada e a disposição está de acordo com a reta razão. A virtude moral consiste em uma mediania relativa a nós. Após estabelecer a virtude moral como uma disposição – héxis – ou seja, como se dá o comportamento do homem com relação às emoções, há ainda a necessidade de que a diferença específica entre virtude moral e virtude intelectual seja explicitada.
Aristóteles
Segundo o Estagirita, o que distingue as duas espécies de virtude é a mediania. A virtude intelectual é adquirida através do ensino, e assim, necessita de experiência e tempo. A virtude moral é adquirida, por sua vez, como resultado do hábito. O hábito determina nosso comportamento como bom ou ruim. É devido ao hábito que tomamos a justa-medida com relação à nós. Logo, a mediania é imposta pela razão com relação às emoções e é relativa às circunstâncias nas quais a ação se produz.

Nenhuma das virtudes morais surge nos homens por natureza porque o que é por natureza não pode ser alterado pelo hábito e “a natureza nos dá a capacidade de recebê-las [as virtudes], e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, II, 1103 a 26). Virtudes e artes são adquiridas pelo exercício, ou seja, a prática das virtudes é um pré-requisito para que se possa adquiri-las. Sem a prática, não há a possibilidade de o homem ser bom, de ser virtuoso. Tornamo-nos justos ao praticarmos atos justos pois “toda a virtude é gerada e destruída pelas mesmas causas e pelos mesmos meios” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, II, 1103b 5-6). Já que as virtudes morais são vistas como produto do hábito, consequentemente são tomadas como inatas. Ao considerar as virtudes morais como adquiridas, há uma implicação de que o homem é causa de suas próprias ações, responsável por seu caráter – por esse motivo a ação precede e prevalece sobre a disposição. Está na natureza das virtudes a possibilidade de serem destruídas pela carência ou pelo excesso e cabe à mediania preservar as virtudes morais e também diferencia-las das virtudes naturais. Pode-se notar, pois, que a ideia de justa-medida preconiza que qualquer virtude é destruída pelos extremos: a virtude é o equilíbrio entre o sentir em excesso e a apatia. Portanto, fica evidente que a virtude busca pela harmonia – e esta é dada pela razão entre as emoções extremas. O meio-termo é experimentar as emoções certas no momento certo e em relação às pessoas certas e objetos certos, de maneira certa. Isso é a mediania, é a excelência moral.

Mediania ou Meio-Termo

Ao propor a mediania como gênero de virtude moral, como regra moral, o Estagirita retornou à sabedoria grega clássica porque esta indicava a mediania como a regra de ouro do agir moral. A mediania tem o aspecto de não silenciar as emoções, mas buscar a proporção e, devido a essa proporção, a ação será adequada sob a perspectiva moral e, concomitantemente, a ação ficará ligada às emoções e paixões. De acordo com Aristóteles, a posição de meio é o que tem a mesma distância de cada um dos extremos. Com relação a nós e sempre considerando nesse viés, meio é o que não excede nem falta. Aqui fica evidente que o “meio” se dá em relação ao agente pois “não é único e o mesmo para todos”  (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, II, 1106 a 34).


 A virtude moral deve possuir a qualidade de visar o meio-termo por se relacionar com as paixões e ações. Nas ações e paixões, por sua vez, existem a carência, o excesso e o meio-termo. As ações e os apetites não tem, em sua natureza, algo que determine sua tendência para a falta ou para o excesso. Por sua vez, a tendência à mediania expressa a virtude moral, expressa a excelência da faculdade desiderativa da alma. O que nos faz tender à mediania é a educação e a repetição de atos bons e nobres. Por conseguinte, o hábito é desenvolvido e visa a mediania. Esta, por sua vez, é determinada por um princípio racional (LOPES, 2008). Pode-se notar que, para Aristóteles, a virtude é uma espécie de mediania já que visa o meio-termo e que é vista como disposição de caráter que tem relação com a escolha dos atos e das paixões. 


A justa-medida é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. Assim, ao buscar pela essência da virtude, por sua definição, Aristóteles define-a como mediania, ou ainda, “a mediedade é a quididade da virtude”(ZINGANO, 2008, p. 23). O Estagirita afirma que sua investigação acerca da virtude não é de cunho exclusivamente teórico, mas a investigação se dá com a finalidade de que os homens tornem-se bons – pois cabe à mesma ciência, ou seja, à Ciência Política, tanto o conhecimento das virtudes quanto a função de fazer com que os homens se tornem bons. Logo, busca-se a definição de virtude e sua aplicação nos fatos particulares.

A virtude é um meio-termo entre dois vícios. Um desses vícios envolve o excesso e o outro vício envolve a carência. Logo, cabe à virtude e à sua natureza visar a mediania tanto nas ações – embora algumas ações não permitem um meio-termo por seus próprios nomes já implicarem, em si mesmos, maldade – quanto nas paixões. Um dos extremos – entre os quais a mediania se localiza – é mais equivocado que o outro. Deve-se, portanto, estar atento aos erros para os quais tem-se maior facilidade para ser arrastado. Pode-se saber para qual erro se é arrastado ao se analisar o prazer e o sofrimento acarretado pelo mesmo. Ao descobrir para qual erro se tende mais, deve-se ir em direção oposta, ao outro extremo para que se chegue ao estado intermediário e, consequentemente, afastar-se do erro.

Em todas as coisas, o meio-termo é digno de ser louvado, conclui Aristóteles ao fim do Livro II. Contudo, ora deve-se inclinar no sentido do excesso, ora da falta com a finalidade de se chegar mais facilmente ao que é correto e ao meio-termo.
No decorrer deste trabalho, expusemos como a noção de mediania se apresenta no livro II de Ética a Nicômaco e sua relação intrínseca com a noção de virtude moral, sendo que esta tem a mediania como essência.


Referências bibliográficas:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2012.
AUBENQUE, P. A prudência em Aristóteles. São Paulo: Discurso Editorial, 2008.
LOPES, M. O Animal Político: Estudos Sobre a Justiça e Virtude em Aristóteles. São Paulo: Singular, 2008.
REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã e antiga, v. 1. São Paulo: Paulus, 2003.
ZINGANO, M. Aristóteles. Ethica Nichomachea I 13-III 8: Tratado da Virtude Moral. São Paulo: Odysseus, 2008.

Dulce María (Minha maior Inspiração)

No pares

Nadie puede pisotear tu libertad
Grita fuerte por si te quieren callar
Nada puede deternerte si tu tienes fe
No te quedes con tu nombre escrito en la pared
En la pared...

Si censuran tus ideas, ten valor
No te rindas nunca, siempre alza la voz
Lucha fuerte, sin medida, no dejes de creer
No te quedes con tu nombre escrito en la pared
En la pared...

No pares, no pares no
No pares nunca de soñar
No pares, no pares no
No pares nunca de soñar
No tengas miedo a volar
Vive tu vida

No construyas muros en tu corazon
Lo que hagas, siempre hazlo por amor
Pon las alas contra el viento
No hay nada que perder
No te quedes con tu nombre escrito en la pared...

No pares nunca de soñar
No pares, no pares no
No pares nunca de soñar
No tengas miedo a volar
Viver tu vida

Mi Guerra Y Mi Paz

Es como un juego sin control
En donde nadie pierde y gana
Es ley de acción y reacción
Es la ley de tu amor y mi amor

No puedo estar lejos de ti
Pero a tu lado no quiero estar
Estoy atada a esta relación
Que me hace volver escapar

Contigo y sin ti es mi obsesión
En un cruel laberinto perdida estoy
No debo permitirme ni prohibirme
Es un caos mi corazón!

Mi vida junto a ti es imposible, incompatible
Y no te puedo dejar
Estamos condenados a vernos y a desearnos
Aunque rompamos da igual.
Mi vida junto a ti es combustible, indiscutible
Es como un dulce letal
Un día nos odiamos y otro nos amamos
Eres mi guerra y mi paz

Yo no quisiera desconfiar
Y ser por siempre tu mitad
Pero más fue de mi instinto de
Conservar a mi fiel libertad

Aunque me digas la verdad
Yo encuentro siempre la falsedad
Tú me desarmas mirándome
Tú mi fuerza y mi debilidad

Contigo y sin ti es mi obsesión
En un cruel laberinto perdida estoy
No debo permitirme ni prohibirme
Es un caos mi corazón!

Mi vida junto a ti es imposible, incompatible
Y no te puedo dejar
Estamos condenados a vernos y a desearnos
Aunque rompamos da igual
Mi vida junto a ti es combustible, indiscutible
Es como un dulce letal
Un día nos odiamos y otro nos amamos
Eres mi guerra y mi paz

Tú, mi calma y mi condena
Al filo del delirio que siempre me desvela
Eres lava en mi interior
Un violento frío que congela

Mi vida junto a ti es imposible, incompatible
Y no te puedo dejar
Estamos condenados a vernos y a desearnos
Aunque rompamos da igual
Mi vida junto a ti es combustible, indiscutible
Es como un dulce letal
Un día nos odiamos y otro nos amamos
Eres mi amarga mitad
Eres mi azúcar y sal
Eres mi guerra y mi paz?

Para tornar-se o que se é

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o".


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